Fundos de Tesouraria sofrem com sucesso dos depósitos

Foram 1.400 milhões de euros que abandonaram as carteiras dos fundos de curto prazo. Os fracos ganhos, inferiores aos juros dos depósitos, são a razão para a fuga.

 

Há dois anos, o Espírito Santo Monetário era um colosso: este fundo de tesouraria, que investe essencialmente em dívida pública e obrigações de entidades financeiras que se vencem durante o próximo ano, tinha mais de mil milhões de euros. Era, de longe, o maior fundo português: chegou a contar com mais de 28 mil investidores. 

Hoje, o Espírito Santo Monetário vale menos de 150 milhões de euros. O fundo, que é comercializado pelo Banco Espírito Santo e pelo Banco Best, é o reflexo de como a crise financeira afectou os fundos de tesouraria e do mercado monetário, usados tradicionalmente para gerir poupanças no curto prazo. 

Apesar de estes produtos terem rendido, em média, 1,06% por cada um dos últimos dois anos, quase 1.400 milhões de euros desapareceram das suas carteiras no biénio, o equivalente a 55,17% dos activos, de acordo com os portefólios publicados pelas gestoras junto da Comissão do Mercado de Valores Mobiliários. 

Os depósitos a prazo são os principais responsáveis pela fuga. "Recentemente, e fruto da situação da economia portuguesa, os bancos tiveram de se tornar agressivos na captação de recursos e passaram a remunerar os depósitos a taxas de juro elevadas e a favorecer esta forma de financiamento na sua actuação comercial", explica João Zorro, gestor da Espírito Santo Activos Financeiros, responsável pelo Espírito Santo Monetário. É difícil convencer os aforradores a manterem-se nos fundos de tesouraria e do mercado monetário quando há, pelo menos, dez instituições financeiras nacionais que pagam juros iguais ou superiores a 4% em aplicações até um ano.

João Zorro diz que, além das taxas dos depósitos, há outra razão para os investidores se afastarem dos fundos de tesouraria e do mercado monetário: a volatilidade aumentou. "O potencial de remuneração é bastante interessante mas, em contrapartida, o horizonte temporal de investimento alargou-se e, hoje em dia, um mínimo de 30 dias é essencial", quando antes uma semana era suficiente, conclui João Zorro.

Um caso isolado no Crédito Agrícola 
Embora o cenário seja de fuga maciça dos investidores, há uma realidade exactamente oposta no Crédito Agrícola. Os activos do CA Monetário quase triplicaram nos dois últimos anos. Fernando Nascimento, o gestor do fundo, explica que o interesse dos investidores se deve "às boas rendibilidades" e "à estabilidade do fundo, que apresenta uma tendência sempre de subida". 

Além de ter alcançado o maior ganho no último ano entre os seus pares, 2,20% contra uma média de 0,97%, as taxas de juro dos depósitos do Crédito Agrícola ficam aquém dessa marca. Segundo o preçário da instituição financeira, o Depósito a Prazo Normal a 365 dias remunera a uma taxa bruta de 0,675%. 

Tal como os particulares, Fernando Nascimento prefere depósitos a investir em títulos de dívida: no início de Julho, o CA Monetário tinha tanto dinheiro em obrigações como num único depósito de duas semanas no Banco Comercial Português a uma taxa anual de 4,5%. "O poder de escala e as boas relações com variadas instituições garantem taxas de juro de depósitos substancialmente superiores aos que os particulares conseguem", conta o responsável da Crédito Agrícola Gest. 

O gestor do CA Monetário não se concentra apenas nas taxas de juro. "Há uma grande preocupação do risco de contraparte", diz. "A diversificação tem uma importância acrescida", por isso, Francisco Nascimento procura separar o património do fundo aplicado em depósitos por vários bancos. No início de Julho contavam--se oito bancos responsáveis pelos depósitos a prazo contratados pelo fundo: desde uma aplicação a um mês no Banco BPI a receber uma taxa anual de 1,8% até a um depósito a 5,5% no Montepio durante seis meses.






Depósitos versus fundos

Embora os depósitos paguem agora o equivalente a mais de três vezes a rendibilidade do último ano dos fundos de tesouraria e do mercado monetário, as vantagens não estão apenas do lado das contas a prazo. No limite, os gestores dos fundos podem juntar o dinheiro dos aforradores e negociar vários depósitos a prazo generosos. No início de Julho, o fundo BPI Liquidez era o que tinha o mais rentável: entre as suas aplicações estava um depósito a seis meses com uma taxa anual de 6% no Banco Comercial Português.








Tesouraria também desvaloriza

Dois fundos portugueses de tesouraria ofereceram perdas aos investidores durante o último ano.

Os ganhos oferecidos pela maioria dos fundos de tesouraria e do mercado monetário ficaram abaixo dos juros que muitos depósitos a prazo estão a pagar aos aforradores. Há, inclusivamente, dois fundos que registaram perdas no último ano. O BPN Tesouraria teve um prejuízo de 0,16%, enquanto a perda do Popular Tesouraria foi de 0,51%. Mesmo assim, os gestores da Popular Gestão de Activos estão optimistas: "Aguarda-se um crescimento do montante sob gestão durante a segunda metade do ano, tendo em conta a boa relação de risco/rendibilidade que este fundo apresenta actualmente", lê-se no relatório anual de gestão do Popular Tesouraria publicado em meados de Março, apesar do fundo ter desvalorizado 1,22% em 2010. No primeiro trimestre ganhou 1,03%. 

Depois da fuga de activos do Espírito Santo Monetário, que chegou a ser o maior fundo português, o BPI Liquidez assumiu a liderança dos maiores fundos de tesouraria e do mercado monetário, apesar de também ter perdido cerca de 50% do património no último ano. Este produto ocupa a segunda posição dos mais rentáveis no último ano, atrás do CA Monetário. Desde que foi lançado, em Março de 1996, o BPI Liquidez ganhou 2,29% por ano.




Fundos para todos

Todos os principais grupos bancários têm, pelo menos, um fundo de tesouraria ou do mercado monetário para os seus clientes. Não foram incluídos nesta lista os fundos Banco BIC Tesouraria, Santander Gestão Premium Liquidez e Santander Gestão Private Liquidez por ainda não terem celebrado o primeiro aniversário.





Nacionais melhores do que estrangeiros

Apenas dois fundos geridos fora de Portugal se destacam no segmento de aplicações de curto prazo.

Apesar de haver três vezes mais fundos estrangeiros disponíveis aos investidores portugueses do que veículos nacionais, os resultados portugueses dos fundos de tesouraria e do mercado monetário têm supremacia sobre os alcançados pelas entidades externas. Enquanto os fundos portugueses ganharam cerca de 1% no último ano, os produtos de sociedades gestoras estrangeiras avançaram 0,5%, segundo os desempenho publicados pelos especialistas de avaliação de fundos da Morningstar. Há, no entanto, dois fundos que pode valer a pena conhecer. O Pimco GIS Euribor Plus e o Vontobel Euro Money conseguiram render mais de 1% no último ano. 


Pimco GIS EuriborPlus E
Rendibilidade 1 ano: 1,99% 
Rendibilidade 3 anos: 2,26%/ano 
Rendibilidade 5 anos: 2,24%/ano 
Classificação Morningstar: **** 
Comercialização: ActivoBank, Banco Best


Andrew Bosomworth, o gestor da norte-americana Pimco que conduz este fundo de invstimento, usa a estratégia proprietária EuriborPlus para conseguir ultrapassar os rendimentos de referência da taxa Euribor a um mês. Esta estratégia, que procura maximizar a rendibilidade enquanto mantém o capital preservado e fornece liquidez diária, investe numa vasta gama de títulos do mercado monetário e em obrigações de curto prazo, embora também possa apostar pontualmente em obrigações mais longas ou de "ratings" mais baixos. A Morningstar atribui-lhe quatro estrelas, num sistema cuja nota máxima são cinco estrelas. 


Vontobel Euro Money C
Rendibilidade 1 ano: 1,01% 
Rendibilidade 3 anos: 1,58%/ano 
Classificação Morningstar: *** 
Comercialização: Banco Best 


A administração liderada por Tolga Hakan Yildirim é mais criteriosa: na carteira do Vontobel Euro Money não entram emissões com "rating" inferior a A- atribuído pela Standard & Poor's. Pouco mais de metade da carteira está aplicada em títulos com o "rating" máximo dessa agência. O património do fundo está diversificado por várias obrigações em euros de emitentes estatais e privados. Entre as principais estão títulos da Toyota Motor, do Royal Bank of Scotland e de França.

fonte:http://www.jornaldenegocios.pt/

publicado por adm às 21:39 | comentar | favorito