Bancos desistem dos Planos de Poupança Reforma

As tradicionais campanhas de fim-de-ano a apelar ao investimento em PPR desapareceram dos bancos.

A tradição já não é o que era. Tal como é certo que o Pai Natal chega sempre em Dezembro, que a neve cai no Inverno e que o Menino Jesus nasceu no dia 25 de Dezembro, também é verdade que é no final do ano que os bancos lançam grandes campanhas de marketing focadas na publicidade aos planos de poupança reforma. Até este ano, esta era uma certeza. Mas analisando os sites das 10 maiores instituições financeiras a operar em Portugal - CGD, BCP, BES, BPI, Santander Totta, Montepio, Crédito Agrícola, Banif, Barclays e Popular - é possível verificar que os bancos estão, pela primeira vez em muitos anos, a ignorar a captação de recursos de clientes para os PPR. A única excepção é o Crédito Agrícola, que tem como destaque da sua ‘homepage' uma campanha ao seu produto para a reforma: o CA PPR.

O desinteresse dos bancos pelos PPR não é surpreendente. Numa altura em que a banca enfrenta dificuldades de acesso a liquidez e tem de cumprir com as metas duras da troika - no que diz respeito à redução do rácio de transformação - as instituições financeiras apostam todas as suas "fichas" na captação de depósitos. Tudo o resto parece ser acessório. Analisando as ‘homepages' dos 10 bancos, todas as instituições colocam em destaque publicidade a depósitos ou contas poupança.

Mas isto não explica tudo. Numa altura em que a banca remunera com taxas elevadas os seus depósitos (ex: para um depósito a um ano é possível encontrar TANB até 6%), os próprios investidores estão mais inclinados a colocarem as suas poupanças num depósito atractivo do que num PPR sob a forma de seguro (com uma rendibilidade mais baixa), ou num PPR sob a forma de fundo de investimento- em que a maioria dos produtos apresenta rentabilidades negativas a 12 meses. Uma tendência que se reflectiu nos resultados do último estudo da Fidelidade Mundial elaborado em parceria com o ISCTE. O inquérito- cujas conclusões foram conhecidas esta semana- revela que 56% dos portugueses escolhe os depósitos para aplicar as suas poupanças com vista à construção de um pé-de-meia para a velhice. Apenas 21% escolhe um PPR para fazê-lo.

A acrescentar a todos estes factores há ainda um ponto crucial que ajuda a explicar a "desistência" da banca e a diminuição do interesse dos investidores em relação a estes produtos: a limitação abrupta dos benefícios fiscais associados a estas aplicações. Recorde-se que até ao ano passado, os investidores poderiam deduzir no IRS até 400 euros das entregas feitas num PPR. Este facto era utilizado como argumento pelos bancos para fazerem campanhas de fim-de-ano focadas nos PPR. "Prepare a sua reforma e aproveite a última oportunidade para poupar até 400 euros no seu IRS". Esta era uma frase que frequentemente aparecia nas campanhas da banca. No entanto, este ano, o caso mudou de figura. O Orçamento do Estado para 2011 criou tectos máximos para os benefícios fiscais dos contribuintes. Assim, no máximo, os portugueses poderão ter acesso a um benefício fiscal com as entregas feitas com um PPR no valor de 100 euros.

A estratégia de comunicar, de forma intensiva, os planos de poupança reforma no final do ano costumava dar frutos. Em 2009, e segundo dados da Associação Portuguesa de Seguradores, os portugueses aplicaram quase 900 milhões de euros em PPR durante os meses de Novembro e Dezembro. Um valor que representou perto de 30% de todas as entregas feitas durante o ano inteiro.

Números que dificilmente este ano se vão repetir: "O quadro é, de facto, um pouco negro para os PPR e para os produtos de poupança de longo prazo, em geral. Não há incentivo à poupança de longo prazo, nem da parte da oferta, nem da parte da procura. E o facto de os mercados estarem a viver um período conturbado faz com que as aplicações tenham rendibilidades mínimas ou mesmo negativas", afirma Diogo Teixeira, administrador da Optimize.

Apesar disso, o responsável da casa gestora de activos acredita que "quando os mercados normalizarem os PPR vão continuar a estar em cima da mesa e a ser uma opção para a poupança de longo prazo". Para Diogo Teixeira, apesar das taxas de juro dos depósitos estarem neste momento muito atractivas, estas aplicações não são as ideais para construir um pé-de-meia com vista à velhice. "Numa lógica de poupança de longo prazo é importante escolher aplicações com maturidades mais longas. Porque se eu colocar as minhas poupanças em produtos de curto prazo, vou acabar por obter uma rentabilidade líquida nula, devido ao efeito da inflação", refere Diogo Teixeira, para quem o investimento directo em obrigações do tesouro portuguesas é, neste momento, uma solução de poupança atractiva.

Campanhas de marketing dos bancos reflectem a crise do sector financeiro

Analisando as campanhas actualmente publicitadas nos sites dos bancos não é apenas a desistência da aposta na captação de PPR e o investimento nos depósitos que salta à vista. Os sites das 10 instituições analisadas são um espelho da crise que o sector financeiro vive. Por exemplo, nenhuma das instituições coloca em destaque qualquer campanha que seja sobre a concessão de crédito a particulares. Um reflexo do "fecho" da torneira do crédito que a banca executou desde o agudizar da crise da dívida soberana. Além disso, há ainda outros denominadores comuns nas ‘homepages' das instituições financeiras. Por exemplo, a CGD, o BCP e o Popular colocam em destaque campanhas fortíssimas para a aquisição de imóveis penhorados pela própria instituição e que podem ser comprados com condições mais vantajosas.

fonte:http://economico.sapo.pt/

publicado por adm às 17:05 | comentar | favorito
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