Como proteger as poupanças do corte do ‘rating’

A nova condição de “lixo” da dívida portuguesa afecta a moral nacional mas não necessariamente as suas poupanças.

A palavra "lixo" entrou no léxico mediático nacional nos últimos três dias. Da conversa de café à elite dos comentários, com maior ou menor propriedade, todos dizem que o país é agora "lixo". Perante uma imagem de cheiro pouco agradável teme-se como nunca o pior. Os meus depósitos estão seguros? Os bancos vão falir? Devo retirar o meu dinheiro do país? Portugal vai entrar em bancarrota? Ser "lixo" não é sinónimo de um fado argentino.

Devo investir em fundos de obrigações?
Quase todos os fundos de obrigações têm limites à exposição a títulos classificados como ‘junk bonds', como é agora o caso da dívida soberana nacional e por acréscimo, de algumas empresas. De forma a cumprir os limites estabelecidos na política de investimento dos fundos, muitos gestores terão de fechar posições em dívida portuguesa, assumindo as perdas. Este não é o melhor momento para estar investido em fundos de obrigações, principalmente portugueses.

Posso perder o dinheiro investido em Certificados do Tesouro ou de Aforro?
Esta é uma questão que se coloca no caso de Portugal ter de vir a reestruturar a sua dívida tal como, tudo indica, acontecerá com a Grécia. Uma reestruturação da dívida significa que o Estado não paga a totalidade da dívida emitida, com perdas para os credores. Ora, quem investe em Certificados do Tesouro ou de Aforro é, na prática, credor do Estado português. Mas entre os especialistas as opiniões dividem-se: há quem considere que em caso de ‘default' todos os credores seriam de igual forma afectados, inclusive os particulares, e há quem discorde. Por diversas vezes questionado sobre esta matéria, o Ministério das Finanças é contundente: "A poupança dos portugueses em dívida pública está integralmente protegida quer no que respeita ao capital quer aos juros".

Devo retirar o meu dinheiro dos bancos portugueses?
Se o valor dos seus depósitos não ultrapassa os 100.000 euros não precisa de se preocupar. O Fundo de Garantia de Depósitos garante o seu capital. Caso tenha aplicados mais de 100.000 euros em depósitos a prazo pode sempre diluí-los por vários bancos, até ao montante máximo de 100.000 em cada um, já que o Fundo garante aplicações até este montante por titular e por conta. Da mesma forma, se tiver 200.000 euros numa conta basta que esta tenha dois titulares para que o total da aplicação esteja protegido. Estas são explicações preventivas e não significam que seja expectável a falência de um banco nacional. De lembrar que as instituições financeiras portuguesas têm uma almofada de capitalização de 12 mil milhões de euros promovida pela ‘troika'.

Devo investir em acções portuguesas?
A praça lisboeta tem sido fortemente afectada não só devido aos efeitos que os sucessivos cortes de ‘rating' têm também nas empresas, uma vez que encarece o seu financiamento no mercado, mas também devido à conjuntura económica do país.

Assim, para investir no mercado nacional há que ser selectivo: empresas pouco endividadas ou com necessidades de financiamento garantidas para os próximos anos; e com elevada diversificação geográfica, de preferência com mais de 50% das receitas a virem do exterior. Numa perspectiva de curto-prazo os analistas têm vindo a recomendar a exposição a mercados europeus não periféricos. Dada a forte desvalorização que sofreram nos últimos dois meses, os analistas consideram que existem boas oportunidades de compra na Europa. Numa perspectiva de longo-prazo a preferência continua a recair por mercados emergentes ou empresas norte-americanas não financeiras.

Os juros dos depósitos a prazo vão subir?
Tudo indica que sim. Nos últimos 12 meses a taxa média dos depósitos subiu de 1,36% para 3,33% devido à necessidade dos bancos em captar recursos de clientes de forma a diversificar as fontes de financiamento. O novo corte de ‘rating' vem reforçar a necessidade dos bancos em captar depósitos de clientes, subindo a taxa de juro.

A minha casa vai desvalorizar? 
Portugal não sofreu os efeitos de uma bolha imobiliária, mas o valor das casas tem vindo a cair devido à escassez de crédito bancário. Ou seja, a lei da oferta e da procura no seu estado mais puro. Tendo em conta que os bancos deverão manter os cordões do crédito fechados, a procura continuará a ser menor do que a oferta, logo o preço das casas deverá continuar a cair. Uma boa oportunidade para comprar, uma má altura para vender.

Os meus créditos vão ficar mais caros?
Os novos créditos vão continuar a ficar mais caros. Objectivamente, o principal efeito directo do corte de ‘rating' é tornar o financiamento dos bancos portugueses mais difícil e mais caro, já que o Estado não necessita de ir ao mercado nos próximos três anos. Tal como tem acontecido até aqui, os bancos irão repercutir os maiores custos de financiamento nos ‘spreads' cobrados aos clientes, além de continuarem a restringir o acesso ao crédito também por outras vias.

O ouro é um bom refúgio?
O ouro é o activo refúgio por excelência, quer em períodos de maior incerteza nos mercados, como o actual, quer em momentos de pressão inflaccionista. No entanto investir actualmente em ouro acarreta uma certa dose de risco devido à subida recorde do seu preço. O ouro valoriza há dez anos consecutivos, nos últimos 12 meses e bateu máximos históricos.

fonte:http://economico.sapo.pt/

publicado por adm às 00:01 | comentar | favorito